
O Brasil atravessa dias estranhos.
Não porque crises institucionais sejam novidade por aqui. Nossa história conhece bem esse terreno. O que chama atenção agora é a sensação de que instituições, autoridades, interesses econômicos e poder político estão novamente misturados numa história que ainda estamos tentando compreender.
As revelações envolvendo o Banco Master, integrantes do Supremo e outras autoridades colocaram uma pergunta desconfortável sobre a mesa: quem presta contas quando aqueles que fiscalizam, investigam ou julgam passam a fazer parte da própria história?
Não faço essa pergunta já carregando uma sentença.
Talvez esse seja justamente um dos nossos problemas. Desaprendemos a fazer perguntas sem antes escolher a resposta.
Tenho minhas convicções políticas, mas não consigo acomodá-las nas prateleiras ideológicas oferecidas hoje pelo debate brasileiro. Também não tenho apreço por ídolos políticos. Não espero um salvador vindo de Brasília.
Talvez minha fé cristã seja uma das razões.
A Bíblia nunca escondeu a fragilidade dos homens que ocupam posições de poder. Reis falham. Juízes falham. Sacerdotes falham. Governantes falham.
Lord Acton escreveu em 1887: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente.”
A força dessa frase não está apenas na crítica ao poder, mas na ideia de que quanto maior a autoridade, maior deveria ser a responsabilidade.
Isso me parece profundamente cristão.
Davi era rei e foi confrontado por Natã. Acabe tinha uma coroa, mas Elias continuou dizendo a verdade. Herodes tinha autoridade, mas João Batista não silenciou. Pedro ocupava uma posição central na Igreja e ainda assim foi confrontado por Paulo.
A Escritura jamais ensinou que o cargo santifica o homem.
Por isso, questionar uma autoridade não deveria significar destruir a instituição que ela representa.
Questionar um presidente não é ser contra a Presidência. Questionar um parlamentar não é desejar o fim do Congresso. Questionar um ministro não deveria significar desejar o fim do Supremo.
Instituições maduras não sobrevivem porque seus integrantes são infalíveis. Sobrevivem porque sabem que eles não são.
Santo Agostinho escreveu em A Cidade de Deus: “Removida a justiça, que são os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões?”
É uma pergunta do século V que continua desconfortavelmente atual.
Não é o tamanho de uma estrutura que a torna legítima. É sua relação com a justiça.
Mas existe outro perigo.
Pedir justiça é muito fácil quando imaginamos que sabemos quem será alcançado por ela.
É fácil pedir investigação quando o investigado pertence ao grupo do qual discordamos. É fácil defender garantias quando elas protegem alguém de quem gostamos.
O verdadeiro teste começa quando os princípios atravessam a fronteira da nossa torcida.
Provérbios 18:17 diz que aquele que apresenta primeiro sua causa parece ter razão, até que outro venha e o examine.
Talvez esse seja um dos textos mais necessários para a era das redes sociais.
Recebemos um print e queremos uma condenação. Assistimos a um vídeo de poucos segundos e construímos uma teoria inteira. Lemos uma manchete que confirma nossa visão de mundo e encerramos a investigação.
Por isso, diante do que acontece no Brasil, não quero antecipar a culpa de ninguém.
Mas também não aceito a ideia de que determinadas posições estejam acima de questionamentos.
Se não houve irregularidade, que uma investigação séria demonstre isso.
Se houve, que os responsáveis respondam.
Simples assim.
Aleksandr Soljenítsin escreveu que “a linha que separa o bem e o mal atravessa cada coração humano.”
Essa ideia me impede de enxergar política como uma batalha entre santos e demônios.
O mal não mora exclusivamente no partido adversário. A corrupção não possui preferência eleitoral. O autoritarismo não pertence a uma única ideologia.
Por isso o cristão deveria manter certa desconfiança diante de qualquer concentração excessiva de poder.
Não porque todo governante seja mau.
Mas porque todo governante é humano.
E é justamente aqui que entra a oração.
Paulo orienta Timóteo a orar “pelos reis e por todos os que exercem autoridade”.
Todos.
Orar pelo Brasil agora não significa pedir a vitória do nosso campo político.
Significa pedir que a verdade venha à luz.
Justiça sem vingança.
Investigação sem espetáculo.
Responsabilização sem perseguição.
Que inocentes não sejam condenados para satisfazer multidões e culpados não sejam protegidos por cargos, influência ou amizades.
Significa também orar pelo Supremo, pelo Congresso, pela Presidência, pela Polícia Federal, pelos jornalistas e investigadores.
E por nós mesmos.
Porque é fácil exigir transparência de Brasília enquanto escondemos aquilo que compromete nossa própria torcida.
Queremos justiça para os adversários e garantias para os aliados.
Investigação para eles.
Presunção de inocência para nós.
Isso não é justiça.
É tribalismo.
Miquéias 6:8 resume de maneira impressionante o que Deus requer do homem: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente diante dele.
Justiça.
Misericórdia.
Humildade.
Talvez sejam justamente essas três coisas que mais estejam faltando ao debate brasileiro.
Não sabemos ainda onde toda essa história terminará.
Mas sei pelo que devemos orar.
Que a verdade apareça, mesmo quando nos constranger.
Que a justiça chegue ao cerne da questão, independentemente dos nomes encontrados pelo caminho.
E que tenhamos maturidade suficiente para aceitar a verdade mesmo quando ela não confirmar aquilo que desejávamos acreditar.
Porque, no fim, a questão talvez não seja quem merece nossa confiança em Brasília.
A questão é maior:
Se só defendemos limites para o poder quando ele está nas mãos dos nossos adversários, estamos realmente defendendo a justiça ou apenas disputando quem terá o direito de exercer o poder sem limites?