Entre a caça aos imigrantes e uma economia que precisa deles

“Eu era estrangeiro, e vocês me acolheram” A Lei da Dignidade propõe uma terceira via entre fronteiras abertas, deportações indiscriminadas e décadas de omissão política.

26/07/2026 às 13h09
Por: Luiz Filemon
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Entre a caça aos imigrantes e uma economia que precisa deles

Enquanto países ricos endurecem as regras migratórias, brasileiros formam uma comunidade de 725 mil pessoas nos Estados Unidos. A Lei da Dignidade propõe uma terceira via entre fronteiras abertas, deportações indiscriminadas e décadas de omissão política

Há uma contradição atravessando as principais democracias do mundo.

Ao mesmo tempo que governos endurecem suas fronteiras, restringem pedidos de asilo e ampliam mecanismos de deportação, suas economias continuam procurando trabalhadores estrangeiros para preencher vagas na construção civil, agricultura, saúde, tecnologia, hotelaria e serviços.

O mundo não está simplesmente fechando suas portas. Está escolhendo, com filtros cada vez mais rígidos, quem poderá atravessá-las.

O relatório migratório mais recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostra que os sistemas de asilo ficaram mais restritivos em diversos países, com procedimentos acelerados, redução de benefícios e novos limites à reunificação familiar. A imigração permanente caiu em grande parte dos países da organização em 2024, enquanto a entrada de novos estudantes internacionais diminuiu 13%. Ao mesmo tempo, listas de profissões com escassez de trabalhadores foram ampliadas e processos de contratação de estrangeiros foram simplificados em vários mercados.

A mensagem é clara: muitos países desejam menos imigração desorganizada, mas continuam precisando de imigração econômica.

É nesse terreno, entre a necessidade de ordem e a realidade do mercado de trabalho, que os Estados Unidos enfrentam uma de suas discussões mais difíceis.

Uma nação construída por imigrantes

A imigração não é um elemento periférico da história americana. Ela faz parte da estrutura econômica, demográfica e cultural do país.

Entre 1850 e 1930, a população estrangeira nos Estados Unidos cresceu de 2,2 milhões para 14,2 milhões de pessoas. Durante o período de industrialização, milhões de imigrantes compuseram a força de trabalho que ajudou a expandir as cidades, as fábricas, as ferrovias e os centros comerciais americanos.

Esse processo não ocorreu sem conflitos. Houve exploração, discriminação, tensões culturais, pobreza urbana e resistência política. Entretanto, estudos sobre a grande migração ocorrida entre 1850 e 1920 encontraram efeitos positivos de longo prazo nas localidades que receberam mais estrangeiros, incluindo níveis mais elevados de renda, escolaridade e urbanização, além de menores índices de pobreza e desemprego nas décadas seguintes.

A experiência histórica americana mostra que imigração bem integrada não representa apenas uma demanda humanitária. Ela pode se tornar uma política de desenvolvimento.

A pergunta atual, portanto, não deveria ser apenas se os Estados Unidos terão imigração. A pergunta mais honesta é: qual tipo de imigração o país pretende organizar?

Os bilhões produzidos pela imigração

Em 2024, aproximadamente 50,2 milhões de pessoas nascidas no exterior viviam nos Estados Unidos. Um ano depois, trabalhadores estrangeiros representavam 19,1% de toda a força de trabalho civil americana. A taxa de participação laboral dos estrangeiros também era maior que a dos americanos nativos.

O Congressional Budget Office, órgão apartidário responsável por análises econômicas para o Congresso, estimou que o aumento recente da imigração poderá acrescentar US$ 8,9 trilhões ao Produto Interno Bruto nominal americano entre 2024 e 2034. A mesma projeção calcula que o movimento poderá aumentar as receitas federais e reduzir os déficits acumulados em aproximadamente US$ 900 bilhões no período.

Esses números não significam que todo fluxo migratório seja automaticamente positivo ou que não existam custos imediatos.

Grandes chegadas em pouco tempo podem pressionar moradia, escolas, hospitais, tribunais e governos locais. Cidades fronteiriças e comunidades com infraestrutura limitada frequentemente absorvem custos antes que a arrecadação e os efeitos econômicos mais amplos apareçam.

A conclusão, porém, não é que a imigração precise ser eliminada. É que ela precisa ser administrada.

Fronteiras sem controle produzem exploração, tráfico humano e insegurança. Um sistema fechado e incapaz de reconhecer a necessidade de trabalhadores estrangeiros, por outro lado, fortalece a clandestinidade e deixa empresas e famílias dependentes de uma mão de obra que a própria lei se recusa a organizar.

A comunidade brasileira nos Estados Unidos

Os brasileiros ocupam uma posição especial nessa discussão.

Os Estados Unidos abrigam a maior comunidade brasileira fora do Brasil. Em 2024, aproximadamente 725 mil pessoas nascidas no Brasil viviam no país. Quando são incluídos os americanos que declaram ascendência brasileira, a diáspora se aproxima de 950 mil pessoas.

A comunidade cresceu 114% entre 2010 e 2024, ritmo muito superior ao crescimento de 26% registrado pela população imigrante americana em geral. Quase dois terços dos brasileiros chegaram aos Estados Unidos depois de 2010.

A Flórida concentra 23% desses imigrantes. Massachusetts abriga outros 17%. Entre os principais destinos metropolitanos estão Boston, Nova York, Miami e Orlando, que aparece como a quarta maior região metropolitana para brasileiros no país.

O perfil econômico também desafia alguns estereótipos associados à imigração.

Em 2024, 48% dos adultos brasileiros nos Estados Unidos possuíam diploma universitário ou formação superior, contra 36% entre os imigrantes em geral e 37% entre os americanos nativos. A participação dos brasileiros no mercado de trabalho chegava a 73%, superando tanto os demais estrangeiros quanto a população nascida no país.

A renda familiar mediana dos lares brasileiros era de US$ 87,5 mil anuais, acima da mediana dos lares liderados por imigrantes e também dos lares liderados por americanos nativos. Brasileiros também eram quase três vezes mais propensos que outros estrangeiros a obter residência permanente por meio de patrocínio profissional.

Isso não significa que toda a comunidade esteja protegida.

O Migration Policy Institute estima que cerca de 286 mil brasileiros viviam sem autorização migratória nos Estados Unidos em meados de 2023. São pessoas em situações muito diferentes: algumas ultrapassaram o período permitido por seus vistos; outras atravessaram a fronteira; algumas aguardam processos; outras vivem há décadas no país, constituíram família, abriram empresas e tiveram filhos americanos.

Colocar todos sob o mesmo rótulo apaga diferenças essenciais.

Uma pessoa envolvida com tráfico, violência ou organizações criminosas não pode receber o mesmo tratamento dado a um trabalhador sem antecedentes que vive há vinte anos no país. Segurança pública exige distinção, investigação e devido processo, não punição coletiva.

A omissão que alimentou a irregularidade

Durante décadas, governos republicanos e democratas reconheceram que o sistema migratório estava quebrado. Poucos conseguiram construir uma solução duradoura.

Em 1986, o presidente Ronald Reagan sancionou a Immigration Reform and Control Act, conhecida como IRCA. A legislação regularizou aproximadamente 2,7 milhões de pessoas que viviam sem documentação nos Estados Unidos.

A medida permitiu mobilidade profissional e econômica para parte dos beneficiários, mas falhou em impedir o crescimento de uma nova população sem status. Entre as principais fragilidades estavam a aplicação insuficiente das punições a empregadores e a ausência de uma modernização permanente dos canais legais de trabalho.

A lição de 1986 não é que regularizações nunca funcionam. É que legalizar pessoas sem reformar a fronteira, as contratações e os vistos apenas adia a próxima crise.

Da mesma forma, reforçar deportações sem enfrentar a demanda econômica por trabalhadores empurra novamente o sistema para a informalidade.

O que propõe a Lei da Dignidade

A chamada Lei da Dignidade de 2025, ou Dignity Act, tenta construir uma solução intermediária.

Apresentada na Câmara pelas congressistas María Elvira Salazar, republicana da Flórida, e Veronica Escobar, democrata do Texas, a proposta reúne medidas de segurança fronteiriça, reforma do asilo, modernização de vistos e regularização condicionada.

O texto ainda é um projeto de lei. Até julho de 2026, não havia sido aprovado pela Câmara nem pelo Senado. A proposta havia sido encaminhada a diferentes comissões, embora tivesse conquistado apoio bipartidário e o endosso do Problem Solvers Caucus, grupo formado por parlamentares republicanos e democratas.

Pelo programa central da proposta, determinados imigrantes que já viviam nos Estados Unidos antes de 31 de dezembro de 2020 poderiam receber uma autorização de trabalho e um status legal renovável por sete anos.

Para participar, seria necessário passar por verificação de antecedentes, manter-se em conformidade com a lei, apresentar-se regularmente ao Departamento de Segurança Interna e pagar US$ 7 mil em restituições ao longo do programa. Os participantes não teriam acesso a benefícios federais nem um caminho automático para a cidadania.

A proposta também contempla proteção permanente para determinados Dreamers, pessoas levadas aos Estados Unidos quando crianças, desde que cumpram requisitos relacionados a trabalho, serviço militar ou educação.

Na fronteira, o projeto prevê vigilância, barreiras, drones, uso nacional do sistema E-Verify e punições para traficantes, contrabandistas e pessoas que apresentem pedidos fraudulentos. Também propõe centros humanitários para analisar solicitações de asilo com maior rapidez.

Segundo o resumo divulgado pelos próprios autores, taxas pagas pelos participantes financiariam um fundo de US$ 70 bilhões para formação de trabalhadores americanos, além de contribuir para a redução de pelo menos US$ 50 bilhões da dívida pública. Esses valores são projeções apresentadas pelos defensores da proposta e não devem ser confundidos com uma estimativa independente do Congressional Budget Office.

Uma proposta criticada pelos dois extremos

A Lei da Dignidade não satisfaz completamente nenhum dos lados do debate.

Organizações defensoras de imigrantes criticam a ausência de um caminho permanente para os participantes do programa principal. Uma pessoa poderia trabalhar, pagar impostos e cumprir as exigências durante anos sem obter residência permanente ou cidadania. Essas entidades também questionam a ampliação dos mecanismos de fiscalização e deportação.

Grupos favoráveis a políticas migratórias mais restritivas, por outro lado, consideram que conceder qualquer status legal a pessoas que entraram ou permaneceram irregularmente no país equivaleria a uma anistia e poderia incentivar novos fluxos.

O fato de a proposta incomodar os dois extremos não prova que ela esteja correta. Mas revela que se trata de uma tentativa real de compromisso, algo raro em uma discussão dominada por campanhas eleitorais, slogans e medo.

A posição da CORE

A CORE defende o direito dos Estados Unidos de controlar suas fronteiras, identificar ameaças e punir com rigor pessoas envolvidas em crimes graves.

Imigrantes que pratiquem violência, tráfico, abuso, fraude ou outros crimes devem responder perante a Justiça. Depois da condenação e do devido processo, o status migratório pode e deve produzir consequências adicionais conforme a legislação americana.

Mas isso não autoriza o Estado a tratar toda uma comunidade como suspeita.

Operações indiscriminadas, abordagens baseadas em aparência ou idioma, separações desnecessárias de famílias e detenções sem respeito ao devido processo não fortalecem a lei. Elas enfraquecem a confiança nas instituições e transformam trabalhadores, pais e crianças em instrumentos de uma guerra política.

Defender a imigração não significa defender fronteiras abertas.

Significa reconhecer que um país pode proteger seu território sem abandonar sua humanidade. Pode remover criminosos sem perseguir famílias. Pode exigir responsabilidade de quem chegou irregularmente sem ignorar décadas de trabalho, impostos e vínculos construídos.

A Lei da Dignidade não é perfeita. Ainda precisará ser debatida, fiscalizada e possivelmente modificada. Entretanto, sua lógica central merece apoio: segurança na fronteira, responsabilidade individual, modernização do sistema e uma oportunidade legal para pessoas de longa permanência que trabalham e não oferecem ameaça à sociedade.

Um modelo para um mundo em transformação

O debate americano ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos.

Países desenvolvidos estão envelhecendo, enfrentando escassez de profissionais e competindo por trabalhadores qualificados. Ao mesmo tempo, crises políticas, guerras e desigualdades continuam empurrando milhões de pessoas para fora de seus países.

Uma política construída apenas sobre repressão não eliminará esses movimentos. Uma política sem controle também não será sustentável.

Caso consiga equilibrar fiscalização, canais legais de trabalho, análise rápida de asilo e regularização condicionada, a Lei da Dignidade poderá se tornar uma referência para outras democracias que enfrentam o mesmo dilema.

A história americana foi escrita por pessoas que atravessaram oceanos, fronteiras e desertos procurando uma oportunidade. Preservar essa história não exige repetir os erros do passado.

Exige algo mais difícil: construir um sistema no qual a porta não esteja escancarada nem permanentemente trancada, mas seja administrada com ordem, justiça, responsabilidade e dignidade.